segunda-feira, 12 de março de 2007

Vieses

Podemos fantasiar a vida

Dar a ela um valor poético

Mas quando perde sangue

Todo poeta vira cético...

Podemos fantasiar a vida

Dar a ela um valor religioso

Mas quando perde sangue

Todo padre procura encosto...

Podemos fantasiar a vida

Dar a ela um belo salvador

Mas quando se perde sangue

É você quem sente dor...

Podemos fantasiar a vida

Dar a ela valor de contentamento

Mas quando se perde sangue

Quem ri por um momento..?

Eu posso fantasiar a vida...

Dar a ela uma bela melodia

Mas se eu perder meu sangue

Você veria minha agonia..?


Escrito por Filipe M. Vasconcelos

sexta-feira, 2 de março de 2007

Velhice


No espelho, com minhas palmas erguidas

Percebo minhas mãos envelhecidas

Meu corpo se modificara

Aquele que a natureza edificara

É consumido por horas seguidas

Meus pêlos, cuja imagem declina

Perderam suas doses de melanina

E agora se branqueiam feito neve

Sinalizando que a morte está breve

E que minha juventude se elimina

Mues braços, outrora tão viris

Agora só sustentam os remédios dos febris

A medicina não me cura

Enquanto o tempo me procura

Para lançar outra cicatriz

Essa matéria que então se modifica

Com outros animais se identifica

A evolução me tornou forte

Mas depois da reprodução segue-se à morte

Que o biólogo tanto decodifica

E para festejar minha doente condição

Bebo num copo, igualmente em decomposição

Um veneno líquido e amargo

Para abrevir essa vida com o encargo

De quem sabe se eximir da solidão


Escrito por Filipe M. Vasconcelos